terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo, volume 1, D. Quixote, 2015.

“Quanto às servidões da maternidade, elas assumem, segundo os costumes, uma importância muito variável: são esmagadoras se se impõem à mulher muitas procriações e se ela deve alimentar e cuidar dos filhos sem mais ajuda; se procria livremente, se a sociedade a auxilia durante a gravidez e se se ocupa da criança, os encargos maternais são leves e podem ser facilmente compensados no campo do trabalho.”


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Maria Teresa Horta in Raquel, Meninas, D. Quixote, 2014.

“Vendo-se reflectida no espelho do precipício Raquel recua, atordoada.
Prisioneira das ambiguidades que a consomem depois de ter sido afastada dos braços de Jacob, desespera-se com a falta do seu corpo entre os lençóis da cama vazia. Desejando pedir ajuda ao divino e lembrando-se de onde ele se depara com a «porta do céu» quando da saída de Bethsabée a caminho de Haran, resolve seguir as pegadas do amado, desmanchando-as e desfazendo-as ao perfazê-las no sentido oposto.
Chegando à morada de Deus, deita a cabeça numa pedra e descansa, pretendendo decifrar o enigma. E tal como acontecera a Jacob, logo se depara com a escada de ouro, degraus de luzimento, por onde os anjos descem e sobem além das nuvens, asas matizadas pelas quais de imediato se enamorara.
«Vai-te, que este não é o lugar das mulheres!» - ordenara-lhe o Senhor. Mas tomada pela paixão do conhecimento, levada pela atracção da queda, desobedece e fica.
Insurrecta.
Imoderada.
Imprudente.”


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Livro: Olhos Azuis Cabelo Preto, Marguerite Duras, Relógio D’Água, 2014.

Terminei a leitura de Olhos Azuis Cabelo Preto, uma obra pouco conhecida da escritora Marguerite Duras. Da autora li há muitos anos O Amante da China do Norte, um romance autobiográfico, do qual, confesso, já não me lembro do que li.
A leitura deste romance de poucas páginas foi intrigante. Tendo sido esta uma semana particularmente exigente e cansativa, à noitinha, a sua leitura transportava-me para outra dimensão, a dimensão de Duras, obrigando-me a desligar do dia que então terminava.
De leitura difícil, exige do leitor uma entrega total, mas, compensa. A literatura compensa.

“Uma última frase, diz o ator, poderia talvez ter sido dita antes do silêncio. Supostamente teria sido dita por ela, para ele, durante a última noite do amor dos dois. Estaria relacionada com a emoção que por vezes se sente quando se reconhece aquilo que ainda não se conhece, com a impossibilidade em que se está de não se poder exprimir essa impossibilidade por causa da desproporção das palavras, da sua magreza, face à enormidade da dor.”


Recomendo a leitura de Olhos Azuis Cabelo Preto, mas dou conta, de que não é de leitura fácil…



domingo, 17 de janeiro de 2016

Livro: Revista LER Inverno 2015.

Ontem à noite terminei a leitura da revista semanal Visão, hoje foi a vez da revista Ler Inverno 2015. São revistas de conteúdos diferentes, mas, em meu entender, acabam por se complementar, ambas possuem artigos bem interessantes, actuais, de carácter informativo.
Se Visão possui artigos que aprofundam temas que nos afectam o dia-a-dia, a Ler para além de artigos de opinião sobre livros, escritores e entrevistas, presenteia-nos ainda com alguns ensaios bem elaborados e muito interessantes, quer sobre literatura, quer também sobre temas de âmbito sociológico, como por exemplo, a excelente entrevista conduzida por Bruno Vieira Amaral a Francisco Bethencourt, a propósito do seu novo livro: Racismos: Das Cruzadas ao Século XX, editado pela Temas e Debates:

“Temos um período de integração económica global, um período de migrações internacionais muito maior. Os períodos de guerra no Médio Oriente são devastadores e implicam a deslocação de milhões de pessoas o que cria tensões e vão ocorrer formas mais violentas de racismo nos próximos anos, mas a longo prazo penso que haverá um declínio do racismo.”

Sobre este livro, já tinha lido uma magnífica entrevista a Francisco Bethencourt, realizada por Luis Almeida Martins, no JL nº 1176 de 2015-10-28.
Com tão boas referências, fiquei mesmo com vontade de ler o livro que versa sobre uma temática que continua actual nos nossos dias.
Do conjunto de textos que saíram neste número, destaco ainda: “A fronteira húngara e a identidade da Europa”, com texto e fotografias de Luís Naves:

“No início de Setembro, Luís Naves partiu em viagem para a Hungria a fim de assistir, no terreno, à chegada de milhares de refugiados vindos dos territórios da antiga Jugoslávia. O retrato não é copiado dos telegramas das agências de notícias, foi obtido no terreno, real e doloroso.”

Mais do que um relato sobre o que presenciou, o autor discorre sobre as origens da Europa e as migrações sucessivas que têm ocorrido ao longo dos séculos no continente europeu:

“Quem somos nós, os europeus? À luz de uma crise de grandes dimensões, a pergunta é mais difícil de responder. Não somos tremendamente diferentes destas pessoas que aqui procuram proteção; fomos também viajantes, procurámos novas terras, conquistámos e saímos do caminho de outros povos mais fortes. Deixámo-los passar, reocupámos o que antes era nosso.”


Outros textos, outras entrevistas poderia referir, mas, deixo à Vossa descoberta…



Agustina Bessa-Luís in A Ronda da Noite, Guimarães Editores.

“Até ao fim somos amantes uns dos outros.

No fim de contas, o que era o amor das pessoas senão aquela cena do trapézio voador, dando as mãos, a fazer saltos mortais com a rede, sem a rede, e no fim, se é que havia fim, a fazer vénias de ginastas e a sumir por detrás dos reposteiros?”


Xavier de Maistre in Viagem à Volta do Meu Quarto, Tinta-da-China.

“Milhares de pessoas que antes de mim não tinham ousado, outras que não haviam podido, outras enfim que nem mesmo tinham ousado viajar, vão decidir-se com o meu exemplo.”