Nos seus andrajos
as pernas cobertas por ligaduras, redes de
poeira, e nos pés umas botas disformes
de sola, trapos, pedaços de lã
cordéis.
Um grosso casaco de capuz, roto, sem cor, sujo.
Arrastava-se por entre fumos e pequenas
labaredas, óleo que manchava a terra sêca
árvores mortas arbustos sem folha; um cão
observava-a de longe, acossado, temeroso
nem sequer tentava aproximar-se no esqueleto da sua
fome.
Parou no que restava de um rio, margem
coalhada de nauseante negro
e ajoelhou-se no desequilíbrio do corpo
sobre o pus de água e com as mãos
em concha levou aos lábios. O cão
chegou e pelo cheiro tentou descobrir as diferenças
das suas existências. E não havia ninguém que
os pudesse ver,
nenhuma consciência que soubesse sustentar o juízo
«eu acabo de sentir uma dor»; uma parte de esterco
e o tempo é pelo meio de um século, pelo exacto começo de outro.
Anna
Akhmatova, in Poemas, tradução do russo, selecção e notas de Joaquim
Manuel Magalhâes e Vadim Dmitriev, Relógio D'Água, 2003.
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domingo, 29 de dezembro de 2019
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Aos defensores de Estaline.
São
estes que gritavam «Solta
Barrabás
para nós na festa», estes
Que
mandaram a Sócrates beber
Veneno
na estreiteza muda da prisão.
Despejar-lhes
a mesma bebida
Na
boca inocentemente difamatória,
A
estes queridos amantes das torturas,
Peritos
na fabricação de órfãos.
(1962)
Anna Akhmatova in “Poemas”, tradução do russo, selecção e Notas de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev, Relógio D'Água, 2003.
Anna Akhmatova in “Poemas”, tradução do russo, selecção e Notas de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev, Relógio D'Água, 2003.
quinta-feira, 21 de julho de 2016
Em vez de um prefácio.
Nos
terríveis anos de Iezhov passei dezassete meses nas filas de prisão em
Leninegrado. Certa vez alguém «identificou-me». Então uma mulher de olhos azuis
que estava atrás de mim, que de certeza nunca ouvira o meu nome, saiu desse
torpor próprio de todos nós naquela altura e perguntou-me ao ouvido (aí todos
falavam num murmúrio):
-
É capaz de descrever isto?
E
eu respondi:
-
Sou.
Então
algo parecido com um sorriso perpassou por aquilo que outrora fora o seu rosto.
1
de Abril de 1957.
Leninegrado
Anna Akhmatova, in “Poemas”, tradução do russo, selecção e notas de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev, Relógio D’Água, 2003.
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