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domingo, 29 de dezembro de 2019

Apontamentos para Anna Akhmatova.

Nos seus andrajos
as pernas cobertas por ligaduras, redes de
poeira, e nos pés umas botas disformes
de sola, trapos, pedaços de lã
cordéis.
Um grosso casaco de capuz, roto, sem cor, sujo.
Arrastava-se por entre fumos e pequenas
labaredas, óleo que manchava a terra sêca
árvores mortas arbustos sem folha; um cão
observava-a de longe, acossado, temeroso
nem sequer tentava aproximar-se no esqueleto da sua
fome.
Parou no que restava de um rio, margem
coalhada de nauseante negro
e ajoelhou-se no desequilíbrio do corpo
sobre o pus de água e com as mãos
em concha levou aos lábios. O cão
chegou e pelo cheiro tentou descobrir as diferenças
das suas existências. E não havia ninguém que
os pudesse ver,
nenhuma consciência que soubesse sustentar o juízo
«eu acabo de sentir uma dor»; uma parte de esterco
e o tempo é pelo meio de um século, pelo exacto começo de outro.

Anna Akhmatova, in Poemas, tradução do russo, selecção e notas de Joaquim Manuel Magalhâes e Vadim Dmitriev, Relógio D'Água, 2003.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Aos defensores de Estaline.

São estes que gritavam «Solta
Barrabás para nós na festa», estes
Que mandaram a Sócrates beber
Veneno na estreiteza muda da prisão.

Despejar-lhes a mesma bebida
Na boca inocentemente difamatória,
A estes queridos amantes das torturas,
Peritos na fabricação de órfãos.

(1962)

Anna Akhmatova in “Poemas”, tradução do russo, selecção e Notas de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev, Relógio D'Água, 2003.


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Em vez de um prefácio.

Nos terríveis anos de Iezhov passei dezassete meses nas filas de prisão em Leninegrado. Certa vez alguém «identificou-me». Então uma mulher de olhos azuis que estava atrás de mim, que de certeza nunca ouvira o meu nome, saiu desse torpor próprio de todos nós naquela altura e perguntou-me ao ouvido (aí todos falavam num murmúrio):
- É capaz de descrever isto?
E eu respondi:
- Sou.
Então algo parecido com um sorriso perpassou por aquilo que outrora fora o seu rosto.

1 de Abril de 1957.
Leninegrado

Anna Akhmatova, in “Poemas”, tradução do russo, selecção e notas de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev, Relógio D’Água, 2003.