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sábado, 25 de abril de 2020

Livro: As Areias do Imperador - Livro 1, Mulheres de Cinza, Mia Couto, Caminho, 2015.


Tentar escrevinhar as nossas impressões sobre a leitura de um romance em dia de aniversário e simultaneamente de celebração da Revolução dos Cravos é muito complicado, especialmente quando a leitura que se fez Mulheres de Cinza, de Mia Couto, pertence a uma trilogia moçambicana sobre:

“… os derradeiros dias do chamado Estado de Gaza, o segundo maior império de África dirigido por um africano. Ngungunyane (ou Gungunhane como ficou conhecido pelos portugueses) foi o último dos imperadores que governou toda a metade Sul do Território de Moçambique. Derrotado em 1895 pelas forças portuguesas comandadas por Mouzinho de Albuquerque, o imperador Ngungunyane foi deportado para os Açores onde veio a morrer em 1906. Os seus restos mortais terão sido transladados para Moçambique em 1985.
Existem, no entanto, versões que sugerem que não foram as ossadas do imperador que voltaram dentro da urna. Foram torrões de areia. Do grande adversário de Portugal restam areias recolhidas em solo português.

Através da sua escrita tão peculiar, Mia Couto leva-nos a conhecer os diversos povos que compõem o mosaico deste imenso país, as suas interligações e dependências em relação ao povo que os quis colonizar, nós, os portugueses.

Um olhar duro e difícil ao tempo de hoje, mas é a história dos europeus colonizadores em África.

Há muito que leio Mia Couto e cada livro que leio mais desconfortável me sinto, é bom sinal, acho eu…

A diferença entre a Guerra e a Paz é a seguinte: na Guerra, os pobres são os primeiros a morrer. Para nós, mulheres, há ainda uma outra diferença: na Guerra, passamos a ser violadas por quem não conhecemos.”

Este dia que festejamos trouxe a liberdade aos povos que nós, os portugueses, colonizamos, mas não lhes trouxe a felicidade, afinal o que lá deixámos não os ajudou em nada.

Eu vou continuar a buscar o desassossego nas leituras que pretendo fazer até ao fim dos meus dias.

Para terminar recomendo a todos os meus amigos leituras desconfortáveis, como este Livro 1 da trilogia As Areias do Imperador - Mulheres de Cinza.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Livro: na berma de nenhuma estrada e outros contos, Mia Couto, Caminho, 1987.

Era uma vez o menino pequenito, tão minimozito que todos os seus dedos eram mindinhos. Dito assim, fino modo, ele, quando nasceu, nem foi dado a luz mas a uma simples fresta de claridade.

É desta forma absolutamente espantosa que se inicia “na berma de nenhuma estrada”, título de um dos contos. Mia Couto foi escrevendo estes pequenos contos para diversas publicações, um dia resolveu reuni-los num só livro.
Gosto de regressar a Mia Couto, aprecio a forma cândida, límpida e simples de retratar as gentes e vivências da sua terra, sempre que início a leitura de um livro do autor, não me apetece nunca parar:

A intensidade das personagens, a multiplicidade de registos, a coexistência do fantástico e do sobrenatural com a tradição, a cultura e a vivência do dia a dia, a capacidade de efabulação e a oralidade que transforma a palavra escrita em puro som, são portos a que acostamos e que nunca desvendamos por completo.”  

Direi certamente uma barbaridade, mas, é por causa da escrita de Mia Couto, que não obstaculizo o AO90, e não consigo compreender, ou não quero compreender, o burburinho à volta do acordo ortográfico de 1990, não me incomoda, não me limita, desafia-me isso sim.

Enfim, polémicas áridas à parte, recomendo vivamente a descoberta da escrita de Mia Couto…



sexta-feira, 24 de julho de 2015

Livro: A confissão da leoa, Mia Couto, Caminho, 2012.

Iniciei a leitura desta obra a fim de satisfazer um compromisso de leitura acompanhada, o acompanhamento foi decepcionante, mas, a obra é maravilhosa.  
Através de A confissão da leoa, Mia Couto identifica os problemas que o povo moçambicano tem enfrentado ao longo dos anos: num tempo antes da independência e mesmo após a independência do país.
- Na guerra, os pobres são mortos. Na paz, os pobres morrem.”
Uma realidade sombria e muito sofrida tanto por homens como por mulheres, uma vida pobre e difícil que se esconde por detrás das praias paradisíacas e do carácter afável das suas gentes.
Gosto muito de ler Mia Couto, gosto da sua forma de escrever, cheia de metáforas e de palavras novas: o português moçambicano.
A gente vive sem pedir e morre sem ter licença.”
Estabeleci em tempos idos e de modo próprio, um plano de leituras, interrompi-o para experienciar algo diferente, mas, não gostei nada, por isso vou regressar ao meu plano, seja ele lá qual for…
É que também eu, “Sou feliz apenas antes de viver. Só tenho lembrança no que sonho. Por isso escrevo.”, mas, eu não escrevo, eu leio…
Termino recomendando-vos meus amigos, a leitura desta e de outras maravilhosas obras do Mia Couto.


terça-feira, 31 de março de 2015

Livro: Venenos de Deus, Remédios do Diabo, Mia Couto, Caminho, 2008

Terminei a leitura de um romance que nem chegou às duzentas páginas, um pequeno romance de Mia Couto, uma pequena pérola da língua portuguesa.
Nesta pequena obra literária encontro pela primeira vez a expressão “português moçambicano”, a qual serve para explicar a incorporação na língua portuguesa de múltiplos vocábulos falados pelas diversas etnias que existem em Moçambique. 
Gosto muito de ler Mia Couto, gosto muito do Moçambique que o escritor descreve, gosto das personagens que constrói e gosto de ler em português moçambicano. 
O jovem médico português Sidónio Rosa, perdido de amores pela mulata moçambicana Deolinda, que conheceu em Lisboa num congresso médico, deslocou-se como cooperante para Moçambique em busca da sua amada.
Em Vila Cacimba, onde encontra os pais dela, espera pacientemente que ela regresse do estágio que está a frequentar algures. Mas regressará ela algum dia?
Entretanto vão-se-lhe revelando, por entre a névoa que a cobre, os segredos e mistérios, as histórias não contadas de Vila Cacimba – a família dos Sózinhos, Munda e Bartolomeu, o velho marinheiro, o administrador, Suacelência e sua Esposinha, a misteriosa mensageira do vestido espalhando as flores do esquecimento.”

Um muito simpático e fantasioso romance que recomendo para leitura.


Livro: Jesusalém, Mia Couto, D. Quixote, 2009.

Após a leitura de um autor como Aquilino Ribeiro, ler um autor como Mia Couto, implica desligar a formatação linguística e entrar em modo livre de criação de novos vocábulos a partir da velhinha língua portuguesa, foi um deslumbramento ler “Jesusalém”, fascina-me a sua capacidade de utilização mágica das palavras, contando uma história cheia de sentido e de conteúdo real e muitas vezes perturbador.
Jesusalem é seguramente a mais madura e mais conseguida obra de um escritor no auge das suas capacidades narrativas (…)”, de tal modo que incorporou magistralmente poemas de outros autores:
O que a memória ama, fica eterno.
Te amo com a memória, imperecível.”

Adélia Prado

ou

“Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exilio
E a luz que nos rodeia é como grades”

Sofia de Mello Breyner Andresen


Recomendo vivamente a leitura dos nossos autores.