domingo, 29 de dezembro de 2019

Apontamentos para Anna Akhmatova.

Nos seus andrajos
as pernas cobertas por ligaduras, redes de
poeira, e nos pés umas botas disformes
de sola, trapos, pedaços de lã
cordéis.
Um grosso casaco de capuz, roto, sem cor, sujo.
Arrastava-se por entre fumos e pequenas
labaredas, óleo que manchava a terra sêca
árvores mortas arbustos sem folha; um cão
observava-a de longe, acossado, temeroso
nem sequer tentava aproximar-se no esqueleto da sua
fome.
Parou no que restava de um rio, margem
coalhada de nauseante negro
e ajoelhou-se no desequilíbrio do corpo
sobre o pus de água e com as mãos
em concha levou aos lábios. O cão
chegou e pelo cheiro tentou descobrir as diferenças
das suas existências. E não havia ninguém que
os pudesse ver,
nenhuma consciência que soubesse sustentar o juízo
«eu acabo de sentir uma dor»; uma parte de esterco
e o tempo é pelo meio de um século, pelo exacto começo de outro.

Anna Akhmatova, in Poemas, tradução do russo, selecção e notas de Joaquim Manuel Magalhâes e Vadim Dmitriev, Relógio D'Água, 2003.

sábado, 28 de dezembro de 2019

27dez1834.

Com a sua irmã Mary, com quem viveu longos anos, Charles Lamb, poeta, dramaturgo - tragédias e farsas - e ensaísta, ocupou uma posição proeminente num círculo literário que incluído os românticos Wordsworth, Coleridge e William Hazlitt. Morreu neste dia, em Londres, devido à infeção de um arranhão na cara, produzido por uma queda na neve.

Agenda Literária 2020, Helena Vasconcelos, Quetzal.

28dez1945.

Morre em Wollywood, de ataque cardíaco, um dos mais importantes representantes do naturalismo na literatura americana, o escritor Theodor Dreiser. O seu primeiro romance, Sister Carrie (1900), conta a história de uma mulher que troca a vida no campo por uma vida fútil na cidade.

Agenda Literária 2020, Helena Vasconcelos, Quetzal.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Livro: A Saga de Selma Lagerlof, Cristina Carvalho, Relógio D’Água, 2018.


À boa maneira nórdica, Cristina Carvalho (1949-) resolveu titular a biografia que construiu sobre a escritora Selma Lagerlof (falta um sinal de dois pontos deitado sobre a letra o), de Saga, mas de facto, esta Mulher nascida na Suécia, na província de Varmland (falta um sinal de dois pontos deitado sobre a primeira letra a), em 1858, vindo a morrer em 1940, viveu uma vida extraordinária.

Pelo amor que nutriu pela terra onde nasceu, pela vontade indómita de dedicar a sua vida a escrever, pelas lutas que encetou em prol da emancipação das mulheres do seu tempo, pelos seus direitos, pela liberdade de amarem quem muito bem entendessem, homens ou mulheres, mulheres ou homens.

Selma Lagerlof, foi distinguida com o grau de doutoramento honoris causa pela Universidade de Uppsala, no ano de 1907.
Recebeu o Prémio Nobel da Literatura, no ano de 1909, foi a primeira mulher a receber tal distinção.
E foi a primeira mulher a entrar para a Real Academia Sueca, no ano de 1914, por unanimidade.

Na verdade, pressinto que foi a primeira vez que li uma biografia e surpreendi-me, fui bafejada pela graça dos deuses nórdicos ao colocarem no meu caminho Cristina Carvalho e Selma Lagerlof, duas Mulheres formidáveis.

Senti o entusiasmo, a profundidade, a identificação de Cristina Carvalho com Selma Lagerlof, a mesma entrega, o mesmo rigor pela escrita, o mesmo amor pela terra, pela casa, pela natureza.

Fiquei com enorme vontade de ler mais coisas escritas por Cristina Carvalho e por Selma Lagerdof.

Muito mais podem ficar a saber sobre Selma Lagerlof e sobre Cristina Carvalho, basta seguirem a dica e quiçá começarem pela A Saga de Selma Lagerlof…


26dez1891.

Henry Miller nasceu neste dia em Nova Iorque. Foi um inovador da linguagem e um destruidor de tabus. Na sua obra, a experiência erótica é tão importante como a critica social, a linguagem explicita e a associação livre. Foi processado por obscenidade graças a Trópico de Câncer (1934), o livro cuja publicação foi paga pela amante Anais Nin. Viveu em Paris, Corfu - com o amigo Lawrence Durrel - e Califórnia.

Agenda Literária 2020, Helena Vasconcelos, Quetzal.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Quinto e último poema natalício:

NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.


Hoje é Natal.
Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.


Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.


Vitorino Nemésio

25dez1892.

Irene Lisboa, nasceu na Arruda dos Vinhos neste dia. Foi poeta, escritora, professora e uma muito importante pedagoga. Formou-se em Lisboa e continuou os estudos na Suíça, em França e na Bélgica, tendo-se especializado em Ciências da Educação. Foi autora de textos didáticos, contos, obras para a infância, crónicas e diários.

Agenda Literária 2020, Helena Vasconcelos, Quetzal.