quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Fernando Namora in A Noite e a Madrugada, Livraria Bertrand, 1978.

“O velho Parra viu o filho logo que ele desembocou na floresta de carvalhos. Ainda mesmo que as oliveiras dos ferragiais deixassem apenas uma nesga de campo livre reconheceria o Pancas a uma distância do Pomar à Ermida da Senhora da Saúde. Bastava aquele descair molengão de ombros. Malhara bem esses ossos, cansara-se de os amolgar com raiva, desespero e, por fim, com desinteresse, até considerar tal filho um figurão estranho à família dos Parras. Que não vissem contar-lhe histórias dos seus roubos, da sua preguiça, do seu vinho. Nada tinha com esses valdevinos, dera-lhe a rua como morada. Os Parras eram outra gente. E chegava a suspeitar da mulher, magicando se ela não teria fabricado aquela cria com algum maltês das cabanas da serra. Acabara por considerar tal desconfiança como demonstrada e, quando os azedos da vida precisavam ser desafogados, sussurrava a mulher por essa fidelidade longínqua.
Sabia, como o sabia toda a gente, que a sonsa tinha sempre uma malga à espera das surtidas do filho, e agora que o via de longe, farejando entre as courelas, ia pensando que, um dia qualquer, acabaria por deixá-lo estendido no descampado. Costumava esconder-se entre as sabes e entrar mais tarde, de supetão, filando mãe e filho abancados na cozinha. Sovava-os então voluptuosamente, até os braços se estafarem. Conhecia melhor o corpo da mulher por aquele som de ripas vazias do que pelo tacto.”




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Maria Teresa Horta in Minha Senhora de Mim, D. Quixote, 2015.

“Canto o Teu Corpo

Canto o teu corpo
passados estes anos:

o prazer que me
acendes
o espasmo que semeias

A seara das pernas
o peito
os teus dentes

a língua que afago
e as ancas estreitas

Canto a tua
febre
fechada no meu ventre

Canto o teu
grito
e canto as tuas veias

Canto o teu gemido
teu hábito
teus dedos

Canto o teu corpo
amor que me encandeia”



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Virginia Woolf in Rumo ao Farol, Relógio D’Água, 2008.

“Estava tão linda a manhã, com apenas um golpe de vento aqui e além, que mar e céu pareciam de um só tecido, como se as velas se colassem ao céu ou as nuvens tivessem caído no mar. Um vapor, lá longe, desenhara no ar um grande rolo de fumo, que ali ficara curvando-se e circulando de forma decorativa, como se o ar fosse uma gaze fina sustentando as coisas e docemente as mantendo na sua malha, apenas serenamente as fazendo oscilar de um lado para o outro lado. E, como às vezes acontece quando o tempo está muito bom, as falésias pareciam ter consciência dos navios, e os navios consciência das falésias, como se uns e outros assinalassem uma qualquer mensagem secreta que lhe fosse privativa. Porque, embora por vezes parecesse muito próximo da praia, o Farol dir-se-ia, nesta manhã, na neblina, a uma enorme distância.”


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Fernando Namora in O Trigo e o Joio, Livraria Bertrand.

“Gostaria de vos contar coisas dessa gente. Coisas da vila, do Alentejo cálido e bárbaro e dos heróis que lhe dão nervos ou moleza, risos ou tragédia. Apetece-me abrir ao acaso páginas do passado e recolher, entre outros, o Loas adivinho do futuro, o Vieirinha, que rasgou o Amazonas e é homem para enjoar se, na sua frente, um parceiro sobejo mergulhar os dedos numa panela de molhangada; o Barão que dependurou o pescoço numa forca; a D. Quitéria, cuja casa cheirava a mofo, a rezas e a gotas balsâmicas que trancassem as portas à gripe. E gostaria de vos falar ainda dos trigos e dos poentes incendiados, dos maiorais e dos lavradores, do espanto dos dias, do apelo confuso da terra, da solidão.”


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Livro: Rumo ao Farol, Virginia Woolf, Relógio D’Água, 2008.

Instalada na varanda da nossa casa, tendo por companhia uma chávena de chá verde e uma manta aconchegando o meu colo, terminei a leitura de Rumo ao Farol, de Virginia Woolf.
Tinha para ler há muito tempo da mesma autora, Orlando, mas, uma querida amiga, aconselhou-me que iniciasse a descoberta da escrita de V. Woolf através deste romance. Foi o que eu fiz.
Iniciei a sua leitura há algumas semanas, fez-me companhia à noitinha, após dias cansativos no trabalho, ajudando-me a relaxar. Num crescendo, a escrita de V. Woolf foi-me prendendo, não se tratando de um grande enredo, a riqueza do romance prende-se com a capacidade que um escritor tem, em construir personagens com conteúdo e profundidade, um romance onde não existe um narrador, ou duas/três personagens que vão alimentando a história, não, nada disso, existem várias personagens que assumem a construção da narrativa e a compreensão do que estão vivendo. Uma forma de escrever riquíssima.
A linha da narrativa deixa-nos perceber claramente o lugar da mulher na sociedade vitoriana.
Senti um enorme prazer em ler este romance e entristece-me profundamente que Virgínia Woolf se tenha suicidado com quase sessenta anos.

Vou voltar com toda a certeza ao convívio com Virginia Woolf, por agora, resta-me recomendar-vos que a descubram também…