“Mas
a definição do homem é que ele é um ser que não é dado, que se faz ser o que é.
Como o disse muito justamente Merleau-Ponty, o homem não é uma espécie natural:
é uma ideia histórica. A mulher não é uma realidade imóvel, mas sim um devir; é
no seu devir que se deveria confrontá-la com o homem, isto é, que se deveriam
definir as suas possibilidades.”
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Maria Teresa Horta in Desobediência, Meninas, D. Quixote, 2014.
“
Então, para seu grande espanto e perplexidade, de pura raiva desobediente,
comecei a trepar pela parede como um pequeno animal perseguido, a marinhar com
determinação, a fim de chegar ao tecto, ao cimo, ao topo, como se subisse a
encosta íngreme de uma montanha,
pequena
alpinista ousada.
Primeiro
uma mão e depois a outra, pernas finas e longas abertas em leque, a fugir aos
dedos que ela deveria estar a estender para me arrebatar na fuga, a fim de me
colocar de volta ao soalho.
Menina
perecível que eu era, como uma borboleta – sentia-me
um
anjo,
como
me chamava a avó, que escutava vozes, via pessoas mortas e contactava com
galáxias longínquas, como a Andrómeda.”
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo, volume 1, D. Quixote, 2015.
O que ando a ler, boa noite meus amigos...
“Em
particular, a psicanálise falha em explicar a razão por que a mulher é o Outro,
pois o próprio Freud admite que o prestigio do pénis se explica pela soberania
do pai e confessa que ignora a origem da supremacia do macho.”
Maria Teresa Horta in Recém-Nascida, Meninas, D. Quixote, 2014.
“Estou
no berço virado de frente para ela.
vagarosa
a descobri-la, tão igual àquela que eu imaginara, a onda do seu cabelo dourado
espalhado no linho da almofada, a face macerada e muito pálida. Olheiras
pisadas a afundarem-lhe o olhar de genciana azul toldado por uma espécie de
neblina que entretanto se levantara do rio do seu próprio corpo.
Ela
dorme?
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
Maria Teresa Horta in Daninha, Meninas, D. Quixote, 2014.
“
- Deixa que te procure no vulto –
diz-lhe Uriel, o anjo da poesia, e ela cede, embora saiba que nem sequer
daninha a consideram entre a ordem dos anjos «Todo o anjo é terrível»,
escreverá séculos mais tarde o poeta; todo o anjo é impiedoso, todo o anjo é
sedutor, olhar perdidamente melancólico e esplendorosas asas fulvas que ela não
se atreve a comparar às suas, incipientes e pálidas, embora matizadas de carmim
e violeta.”
terça-feira, 3 de novembro de 2015
Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo, volume 1, D. Quixote, 2015.
Com esta interrogação vos deixo, boa noite meus amigos...
“Se a
função de fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos
também a explicá-la pelo «eterno feminino», e se, no entanto, admitimos,
ainda que provisoriamente, que há mulheres na Terra, teremos de
formular a pergunta: que é uma mulher?”
Maria Teresa Horta in Daninha, Meninas, D. Quixote, 2014.
“Ao
passarem por ela, as mulheres persignam-se e seguem encostadas às paredes e aos
muros, a olhar no chão, sem jamais a encararem nos olhos de azulado cristal glaciar.
Cegueira
mate, afirmam, acusando-a de coisas ínvias e tenebrosas, perniciosas, num
desdém equívoco. Insidiosas e matreiras, evitam-na quanto podem, a desviarem-se
do seu caminho na recusa de pousarem os pés nos passos do seu trilho. Mas,
pertinaz, ela não se desvia, grão de pó, noz, bago e semente, leite do peito e
mágoa.”
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