segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo, volume 1, D. Quixote, 2015, p. 75.

“Mas a definição do homem é que ele é um ser que não é dado, que se faz ser o que é. Como o disse muito justamente Merleau-Ponty, o homem não é uma espécie natural: é uma ideia histórica. A mulher não é uma realidade imóvel, mas sim um devir; é no seu devir que se deveria confrontá-la com o homem, isto é, que se deveriam definir as suas possibilidades.”


Maria Teresa Horta in Desobediência, Meninas, D. Quixote, 2014.

“ Então, para seu grande espanto e perplexidade, de pura raiva desobediente, comecei a trepar pela parede como um pequeno animal perseguido, a marinhar com determinação, a fim de chegar ao tecto, ao cimo, ao topo, como se subisse a encosta íngreme de uma montanha,
pequena alpinista ousada.
Primeiro uma mão e depois a outra, pernas finas e longas abertas em leque, a fugir aos dedos que ela deveria estar a estender para me arrebatar na fuga, a fim de me colocar de volta ao soalho.
Menina perecível que eu era, como uma borboleta – sentia-me
um anjo,
como me chamava a avó, que escutava vozes, via pessoas mortas e contactava com galáxias longínquas, como a Andrómeda.”


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo, volume 1, D. Quixote, 2015.

O que ando a ler, boa noite meus amigos...
“Em particular, a psicanálise falha em explicar a razão por que a mulher é o Outro, pois o próprio Freud admite que o prestigio do pénis se explica pela soberania do pai e confessa que ignora a origem da supremacia do macho.”


Maria Teresa Horta in Recém-Nascida, Meninas, D. Quixote, 2014.

“Estou no berço virado de frente para ela.
vagarosa a descobri-la, tão igual àquela que eu imaginara, a onda do seu cabelo dourado espalhado no linho da almofada, a face macerada e muito pálida. Olheiras pisadas a afundarem-lhe o olhar de genciana azul toldado por uma espécie de neblina que entretanto se levantara do rio do seu próprio corpo.
Ela dorme?
  

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Maria Teresa Horta in Daninha, Meninas, D. Quixote, 2014.

“ - Deixa que te procure no vulto – diz-lhe Uriel, o anjo da poesia, e ela cede, embora saiba que nem sequer daninha a consideram entre a ordem dos anjos «Todo o anjo é terrível», escreverá séculos mais tarde o poeta; todo o anjo é impiedoso, todo o anjo é sedutor, olhar perdidamente melancólico e esplendorosas asas fulvas que ela não se atreve a comparar às suas, incipientes e pálidas, embora matizadas de carmim e violeta.”


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo, volume 1, D. Quixote, 2015.

Com esta interrogação vos deixo, boa noite meus amigos...

“Se a função de fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também a explicá-la pelo «eterno feminino», e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na Terra, teremos de formular a pergunta: que é uma mulher?”


Maria Teresa Horta in Daninha, Meninas, D. Quixote, 2014.

“Ao passarem por ela, as mulheres persignam-se e seguem encostadas às paredes e aos muros, a olhar no chão, sem jamais a encararem nos olhos de azulado cristal glaciar.
Cegueira mate, afirmam, acusando-a de coisas ínvias e tenebrosas, perniciosas, num desdém equívoco. Insidiosas e matreiras, evitam-na quanto podem, a desviarem-se do seu caminho na recusa de pousarem os pés nos passos do seu trilho. Mas, pertinaz, ela não se desvia, grão de pó, noz, bago e semente, leite do peito e mágoa.”