sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Uma coletânea da marquesa de Alorna, in JL nº 1175 de 2015-10-14.

"A marquesa de Alorna (Leonor de Almeida Portugal – 1780/1838) foi uma grande figura do seu tempo, aliás com um percurso de vida riquíssimo e multifacetado, que tem designadamente um magnífico romance que lhe é dedicado e disso mesmo bem ilustrativo: As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta. Como poeta, com o pseudónimo de Alcipe (que lhe foi “inventado” por Filinto Elisio), tem uma larga obra, de que em vida só deu a conhecer uma pequena parte, divulgada em manuscritos, não obstante isso sendo bem conhecida. E “a sua obra completa em verso teve uma única edição promovida pelas suas filhas em 1844”, como assinala a especialista Vanda Anastácio (VA), responsável pela organização, introdução e nota bibliográfica desta antologia, Obra Poética, saída na muito útil e oportuna Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa, da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, dirigida por Carlos Reis, que assina também uma nota “prévia”. Antes desta, sublinha ainda VA, foi publicada em Portugal só uma antologia da lírica da Alcipe, em 1960, e no Brasil uma edição critica dos sonetos, em 2008. Para “desfrutar da leitura dos seus versos o leitor de hoje deverá dispor-se a empreender uma espécie de viagem mental ao Portugal do Século das Luzes, situar os elementos mais datados dos seus versos no tempo longo da História e deixar-se tocar por esses outros aspetos que não perderam atualidade”, sublinha ainda a prefaciadora.”


sábado, 10 de outubro de 2015

"A necessidade biológica - desejo sexual e desejo de posteridade - que coloca o macho sob a dependência da fêmea não libertou socialmente a mulher."


Iniciei a leitura da obra O Segundo Sexo de Simone Beauvoir e só me ocorre perguntar: por onde tenho andado? Que caminhos percorri até chegar a esta espantosa obra? E não foi por falta de aviso e de recomendação!

Leio na contracapa do livro:

“O Segundo Sexo é uma obra essencial do feminismo e dos estudos de género, e as suas considerações acerca dos condicionamentos sociais que levam á construção de categorias como «mulher» ou «feminino» - e que estão na base da opressão das mulheres – são hoje amplamente aceites.”

E de acordo com a autora, o livro foi escrito nos anos de 1948-1949.
Em minha opinião permanece atualizadíssimo!

Para começar aprendi uma nova palavra:
Alteridade, o que, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2002, significa:
 “1. Natureza ou condição do que é outro, do que é distinto. 2. Situação, estado ou qualidade que se constitui através de relações de contraste, distinção, diferença [Relegada ao plano de realidade não essencial pela metafísica antiga, a alteridade adquire centralidade e relevância ontológica (parte da filosofia que estuda a natureza do ser) na filosofia moderna e especialmente na contemporânea.”

Um conceito importante para a autora.

Por exemplo:
“Porque não contestam as mulheres a autoridade do macho? Nenhum sujeito se coloca imediata e espontaneamente como não-essencial; não é o Outro que, definindo-se como Outro, define o Um; ele é posto como Outro pelo Um definindo-se como Um. Mas para que o Outro não se transforme no Um é preciso que se sujeite a esse ponto de vista alheio. De onde vem essa submissão na mulher?”

Ou:
“O casal é uma unidade fundamental cujas metades se acham presas indissociavelmente uma à outra; nenhum corte é possível na sociedade por sexos. É isso que caracteriza fundamentalmente a mulher: ela é o Outro dentro de uma totalidade cujos dois termos são necessários um ao outro.”

Brevemente voltarei a dar noticias…

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Livro: Meninas, Maria Teresa Horta, D. Quixote, 2014.

A ouvir John Coltrane escrevo sobre mais uma obra que acabei de ler de Maria Teresa Horta: Meninas.
Um livro extraordinariamente belo, intenso e terrível. São trinta contos, trintas histórias sobre outras tantas Meninas, princesas, burguesas, humildes, abandonadas, desamparadas, violentadas, física e psicologicamente.
Afinal, porque tem que ser esta, a sina de todas as Meninas ao longo dos tempos?

“O monstro morreu: em seu lugar
 nasceu uma menina que era
 sozinha
Clarice Lispector”

Gostei da evocação da espantosa D. Leonor de Almeida, condessa de Oeynhausen, a querida Leonor das Luzes, personagem principal de um dos livros que mais gostei de ler nestes já muitos anos que levo de livros e leituras.
Gosto da forma poética que MTH imprime à sua escrita, uma forma rica, minuciosa, mágica, na descrição dos ambientes e sobretudo das personagens que compõem as suas narrativas. Se fico preocupada com os monstros que grassam pelos seus textos, deixa-me sempre descansada a existência de anjos que protegem as Meninas de todo o mal.
Confesso que não estava preparada para o último conto. A história de Estrela, uma menina abusada. Uma história terrível, intensamente contada, que infelizmente retrata uma realidade que continua muito atual e que por esse motivo tem mesmo que ser gritada.

“Quando as meninas
fitam o nada
de olhos vagos

Uma brisa cruel
vacila e sussurra
no seu peito

Estão a ver um anjo
- imagino

Mas as mães
desesperam”

Com esta maravilhosa obra de Maria Teresa Horta, iniciei um plano de leituras só de escritoras, segue-se Simone de Beauvoir e o ensaio O Segundo Sexo, 1º volume, da Quetzal:
Este é o mote:

“Compreende-se que a dualidade dos sexos (…) tenha sido traduzida por um conflito. Compreende-se que, se um dos dois conseguisse impor a sua superioridade, esta deveria estabelecer-se como absoluta. Resta explicar porque venceu o homem desde o início. Parece que as mulheres deveriam ter saído vitoriosas. Ou a luta poderia nunca ter tido solução. Por que razão o mundo sempre pertenceu aos homens e só hoje as coisas começam a mudar?”


Termino esta prédica que já vai bem longa, recomendando a leitura de Meninas de Maria Teresa Horta, faz-nos bem ler…