sábado, 9 de janeiro de 2016

Francisco Bethencourt in Entrevista de Bruno Vieira Amaral, revista LER, Inverno 2015.

“Aquela ideia de que as pessoas por não serem letradas são burras é falsa. As pessoas fazem escolhas muito racionais. Como os portugueses mandavam poucas pessoas para a Ásia, promoveram as relações raciais e promoveram elites locais mistas e isso distingue-os dos holandeses. Porquê? Porque estes misturam-se mas não dão estatuto político a essa população. Os holandeses mandaram para a Ásia um milhão de pessoas. Os portugueses não tinham isto e promoveram os casamentos raciais.” 





Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo, volume 1, D. Quixote, 2015.

“A mulher é uma fêmea na medida em que se sente fêmea. Há dados biológicos essenciais e que não pertencem à situação vivida. Assim é que a estrutura do ovário nela não se reflecte; ao contrário, um órgão sem grande importância biológica, como o clítoris, nela desempenha um papel de primeiro plano. Não é a natureza que define a mulher; esta é que se define, retomando a natureza em sua afectividade.”


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Maria Teresa Horta in A Espia, Meninas, D. Quixote, 2014.


“A menina empurra de manso com a ponta dos dedos a porta do quarto dos pais e, pela frincha que deixa estreita, dirige os olhos relutantes até à cama, colcha de cetim cor de cravo rosado que os corpos entrançados enrodilham, nó de nudez e de gemidos e gritos mordidos como sempre, as ancas direitas do pai envolvendo a lonjura das pernas altas da mãe, que se entrega enquanto inclina para trás a cabeça, linha intacta e pura das costas por onde desce a correnteza loura dos cabelos, indo enroscar-se na tepidez da luz coada pelo tom de marfim das cortinas de renda. Caracóis molhados pelo suor que lhe perla a garganta frágil, caule de lírio alvo de onde parte aquela espécie de uivo mordido, espécie de rugido selvagem de quem se descobre a si mesma entretecida e dúbia, lâmina da qual sente o gume sem entender o motivo, intuindo mais do que sabendo o desvario e a vertigem.
De súbito aturdida, a menina amedronta-se, (…)”





O meu exemplar chegou hoje à Madeira...