“Aquela
ideia de que as pessoas por não serem letradas são burras é falsa. As pessoas
fazem escolhas muito racionais. Como os portugueses mandavam poucas pessoas
para a Ásia, promoveram as relações raciais e promoveram elites locais mistas e
isso distingue-os dos holandeses. Porquê? Porque estes misturam-se mas não dão
estatuto político a essa população. Os holandeses mandaram para a Ásia um
milhão de pessoas. Os portugueses não tinham isto e promoveram os casamentos
raciais.”
sábado, 9 de janeiro de 2016
Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo, volume 1, D. Quixote, 2015.
“A
mulher é uma fêmea na medida em que se sente fêmea. Há dados biológicos
essenciais e que não pertencem à situação vivida. Assim é que a estrutura do
ovário nela não se reflecte; ao contrário, um órgão sem grande importância biológica,
como o clítoris, nela desempenha um papel de primeiro plano. Não é a natureza que
define a mulher; esta é que se define, retomando a natureza em sua
afectividade.”
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Maria Teresa Horta in A Espia, Meninas, D. Quixote, 2014.
“A
menina empurra de manso com a ponta dos dedos a porta do quarto dos pais e,
pela frincha que deixa estreita, dirige os olhos relutantes até à cama, colcha de
cetim cor de cravo rosado que os corpos entrançados enrodilham, nó de nudez e
de gemidos e gritos mordidos como sempre, as ancas direitas do pai envolvendo a
lonjura das pernas altas da mãe, que se entrega enquanto inclina para trás a
cabeça, linha intacta e pura das costas por onde desce a correnteza loura dos
cabelos, indo enroscar-se na tepidez da luz coada pelo tom de marfim das
cortinas de renda. Caracóis molhados pelo suor que lhe perla a garganta frágil,
caule de lírio alvo de onde parte aquela espécie de uivo mordido, espécie de
rugido selvagem de quem se descobre a si mesma entretecida e dúbia, lâmina da
qual sente o gume sem entender o motivo, intuindo mais do que sabendo o
desvario e a vertigem.
De
súbito aturdida, a menina amedronta-se, (…)”
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